terça-feira, 9 de novembro de 2010

“Um breve conto de bruxas generalizado”

por Nathaly Guatura.

Era uma vez, no hodierno de nossa sociedade, uma químera chamada Educação.
Outrora, em longínquos tempos, essa fantasia fora realidade. E com essa realidade reinava uma harmonia e uma quase paz semi absolutas. Obviamente o infeliz “quase” e o consterno “semi” em nossa emergente narrativa se devem ao fato de que para existir a história e a humanidade precisa-se, indispensavelmente, de seres humanos. E com a mais intensa diversidade desses homo sapiens sapiens (antes apenas com um único sapiens) existe a mais sortida parafernália de pequeninos grupos desses animaizinhos sórdidos, onde cada uma dessas famílias possuem determinados tipos de modos, valores e costumes.*
A educação que procuro aqui ressaltar não é aquela oferecida em instituições de ensino, nas quais encontramos um meio (um tanto quanto incerto) de fazer com que nossas crianças sejam bem instruídas para posteriores situações na soturna vida, e sim a educação de berço que as gerações anteriores foram aos poucos se esquecendo de passar adiante. A educação que nasce e morre com a carne. É dessa escassa ou até extinta educação de que falo.
A Sra. Educação que retirou-se da sala para dar mais espaço para uma outra Sra.obesa chamada Acomodação.
Os habitantes desse mundo de muito atrás se tratavam mutuamente com outro sentimento - o qual admiro imensamente - que integra sutil e valorosamente nosso atual sonho; o respeito.
Olhávamos-nos a todos nós respeitavelmente. Colocava-se tudo o que pedia-se e tirava-se tudo o que punha-se. E tudo era uma alegria.
Mas, como nem tudo na vida é festa... Mas, como nem tudo na vida são flores... Mas, como na vida o mal se faz sempre o mais plausível...
O mal. O mal profundo que sempre tentara se instalar... Acabara conseguindo de vez, quando um monstro (um monstro horrendo!) se fez hóspede em nossa terra.
O Monstro da pseudo-evolução intelectual havia devorado nossos preceitos e nossa boa convivência. E a partir daí fomos obrigados a engolir as falcatruas de seus capangas comodistas e toda a ignorância de uma geração que escarra nos cumprimentos e se intitula evoluída.
Desde então, os lacaios deste falso desenvolvimento nos impõem a vivência em um mundo onde recebem ordens aqueles que não sabem e apenas são obedecidos os que têm. Onde boa educação é igual ao extenso capital financeiro e a falta dela é andar com um saco nas costas e um chinelo nos pés.

*Acredito, querido leitor, que já tenha ciência absoluta acerca de tal afirmação, entretanto, para que tudo o que digo fique bem claro, preciso partir dos princípios de minhas idéias.

"Acerca da Educação"

por Peterson Oliveira e Luciano Nunes.


Temos por educação todo processo de aprendizagem e ensinamento que envolve uma pessoa de maior instrução ética ou intelectual e uma pessoa com menor bagagem de conhecimento mas que deseja o aprendizado. Muitas vezes, por questões culturais, esse processo é imposto aos indivíduos.

A transferência de conhecimentos é extremamente importante para a valorização cultural e para a expansão de valores éticos e profissionais, sendo, esse conjunto, a base para a formação de uma sociedade mais igualitária, de alto nível e comprometida com causas sustentáveis, econômicas e políticas sem qualquer agressão às pessoas.

Todo esse processo é iniciado, geralmente, na infância, onde obtemos de nossos pais as primeiras distinções do que julgam ser certo e errado. Essas distinções, mais tarde, irão influenciar fortemente na formação ética do indivíduo, formação a qual foi proporcionada pelos passos iniciais da educação e dá à pessoa a capacidade de distinguir o que lhe é bom ou não e o que afeta de forma positiva ou negativa a vida de terceiros, segundo aquilo que foi introduzido à sua formação.

Em âmbito profissional a educação é a porta de entrada para a formação de pessoas capacitadas para atuarem em todas as áreas do mercado de trabalho, uma vez que, através dela adquirimos conhecimentos que capacitam e preparam leigos para que tenham ação ativa na formação econômica e comercial do país, tendo como fruto uma boa qualidade de vida.

Sendo assim, entendemos que a educação é o patrocinador de uma sociedade que caminha para a perfeição. É o investimento na educação que nos dará a possibilidade de superioridade social e ética. O objetivo da educação é sempre a longo prazo, visando o trabalho de formação das gerações futuras, que sempre será acrescido à cultura de uma sociedade.

Muitos falam em educação, mas realmente poucos conhecem esse termo a fundo.
Ensinar é vivenciar a educação. Um indivíduo pode receber valores educacionais em quaisquer lugar está possa encontrar-se.
Assim, concluimos que educação é a arte de ensinar e vivenciar o que ensina.
O conhecimento é infinito e fundamental.



Curta : A Procura da Felicidade

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

"Replay Político"

por Catarina dos Santos Dutra.

Andando nas ruas dessa cidade, vejo a impotência de cada ser escravo, seus olhos não mentem. Vejo o fim da igualdade. Vejo a força da rivalidade, sem idéias e nem conclusão.
Os dias se tornam cegos, uma vida neblinada, onde não se enxerga, não se escuta, não se sente.
Somos roubados por salafrários, usados para o bem pessoal.
Democracia? Não sei o que é.
Será que realmente eu sei o que é meu? O que eu mereço? Tudo o que preciso não está comigo.
Público? Direito? Tenho apenas deveres, e sempre o que fizer se tornará inútil. Pois pago mais que recebo.
Quando estou doente, penso em uma salvação, mas sempre vou ser deixado de lado, estou engada, não sou emergência, me fingir de morto não adiantaria, terminariam de me matar cortando os pedaços para não gastar dinheiro em um caixão maior.
Procuro entender o porquê das coisas, me deixam mais de cinco horas sentada escrevendo, escrevendo, e ganhando nota de caderno.
Preciso de segurança, me encaixo em um mundo cruel, mas tenho que escolher entre ladrão e incompetente. Apanho para os dois. Para que ter essa dúvida?
Então procuro me centralizar em um mundo perfeito e sou cobrada pela entrada nele.
Tudo se forma pensando em vantagens pessoais, hoje poucos tentam mover os blocos para se formar uma coisa só. Mas ainda sim, sei que tudo pode mudar, não o começo, mas sim o final.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Entrevista com a Diretora: Valéria Racero Pimenidis



O blog “Alfa” entrevistou nossa Diretora, Valéria Racero Pimenidis, com o intuito de saber o que a mesma pensa acerca de Educação, Mudanças Sociais e principalmente sobre nossa escola, a ETEC de Cidade Tiradentes, e seus alunos.

 
1) Quanto tempo você trabalha na Educação e o que a motivou a ingressar nessa área?
Estou na Educação há 10 anos, porém antes disso eu trabalhava numa empresa multinacional onde ministrava treinamento empresarial para as filiais. Neste período eu já exercia a função de educadora, a partir daí obtive muitas realizações com a Educação.

 
2) Quais são as suas expectativas em relação às possibilidades de mudanças trazidas pela Educação para a sociedade?
A Educação pode mudar uma nação e as expectativas são as melhores possíveis. A Educação faz com que o homem reflita sobre sua própria realidade e possa ser capaz de mudá-la para melhor. A Educação tem um papel de transformação da sociedade.
 
3) Quais as atribuições do Cargo de Direção da Escola?
- Garantir as condições para o desenvolvimento da gestão democrática do ensino, na forma prevista pela legislação e pelo Regimento Comum das Escolas Técnicas do Centro Paula Souza;

- Coordenar a elaboração da proposta pedagógica da escola;

-Organizar as atividades de planejamento no âmbito da escola;

- Gerenciar os recursos físicos, materiais, humanos e financeiros para atender às necessidades da escola a curto, médio e longo prazos;

- Promover a elaboração, o acompanhamento, a avaliação e o controle da execução do Plano Plurianual de Gestão e do Plano Escolar;

- Garantir o cumprimento dos conteúdos curriculares, das cargas horárias e dos dias letivos previstos;

- Garantir os meios para a recuperação de alunos de menor rendimento e em progressão parcial;

- Assegurar o cumprimento da legislação, bem como dos regulamentos, diretrizes e normas emanadas da administração superior;

- Expedir diplomas, certificados e outros documentos escolares, responsabilizando-se por sua autenticidade e exatidão;

- Desenvolver ações, visando ao contínuo aperfeiçoamento dos cursos e programas, dos recursos físicos, materiais e humanos da escola;

- Zelar pela manutenção e conservação dos bens patrimoniados e de outros bens colocados à disposição da escola;

- Promover ações para a integração escola-família-comunidade-empresa;

- Coordenar a elaboração de projetos, submetendo-os à aprovação dos órgãos competentes, acompanhar seu desenvolvimento e avaliar seus resultados;

- Criar condições e estimular experiências para o aprimoramento do processo educacional;

- Prestar informações à comunidade escolar.

 
4) No seu ponto de vista o que representa esta escola para a Cidade Tiradentes e arredores?
A escola representa muito para o bairro de Cidade Tiradentes. A ETEC veio para contribuir para o crescimento intelectual da comunidade através do desenvolvimento profissional e humano, agregando valores que proporcionem melhoria na qualidade de vida. Essa é a nossa missão e tenho certeza que ela está sendo cumprida.






quarta-feira, 1 de setembro de 2010

"Por que Alfa?"

por Peterson Oliveira

Podemos dar vários significados à palavra ALFA. No alfabeto grego, alpha, é a letra inicial, como o “A” do nosso alfabeto e é equivalente ao valor numérico de um (1). Alpha, uma vogal, foi um fator inovador introduzido ao alfabeto grego, dando novos horizontes à escrita. Amplia também os horizontes da biologia, uma vez que, nessa área, é uma qualidade aos animais superiores em sua organização social, ou seja, o macho ou a fêmea alfa são os líderes. Eles têm a força, habilidade, facilidade para tomar decisões, personalidade marcante, coragem e bravura, e juntos, um macho e uma fêmea alfa impõem autoridade e domínio até que haja um combate onde o outro coloque sua superioridade à prova para assumir sua posição. Na química, radiação alfa, é uma partícula formada por um átomo de hélio com carga positiva. A distância que uma partícula percorre antes de parar é chamada de alcance. Num dado meio, partículas alfa de igual energia têm o mesmo alcance. É a radiação de menor nocividade.
Mas que relação tudo isso teria com um determinado grupo de alunos do Ensino Médio da ETEC de Cidade Tiradentes? A nossa proposta de um grupo de estudos é uma experiência inovadora, para superar expectativas com novas perspectivas que ganhe alunos professores e funcionários. Queremos ser, assim como a letra grega alfa,um ponto de referência, como fonte de formação e informação intelectual, mostrando tudo aquilo que influenciará nosso futuro acadêmico profissional ampliando nossas ambições estudantis. Queremos ser o macho alfa da nossa escola, tendo força, habilidade, bravura, coragem; queremos estar onde tudo acontece, questionando, apoiando e criticando junto com os alunos e o corpo docente da escola, que formam a nossa fêmea alfa. Pretendemos melhorar cada vez mais o convívio escolar e as relações dentro e fora da escola. Tornar o jornal o porta-voz dos alunos de forma pacífica é mais um dos nossos objetivos, sempre conservando o respeito, mantendo a humildade, transmitindo tudo com ética, sempre abertos às novas formas de pensar.

"Tempo de Free"


Por Dário Martins


por Luciana Basilio


Seria permitido ao homem pensar

A liberdade sem tê-la.

Seria só e tão somente possível

Degustar o tédio se esse fosse elemento fundamental para a fuga

Comprazia...

O homem se torna livre

Quando pode de verdade aproveitar o

Vento que bate em seu rosto com cheiro

De maresia, de terra molhada, de mato

Com cheiro de cinza urbana.

Feliz o homem que está na condição de liberto.

Eis que pode andar, saltar, sentir, vivenciar

Pode então contemplar o que avista e

Tem som de mar, tem luz de iluminar, cor de céu,

Azul em vários tons num baque só

Inteiro o homem de liberdade

Mesmo preso às amarras da história

Que grita, que sofre, que arde, que dói,

Que respira.

Pode o homem de liberdade transformar

Ser outro e ser ele mesmo, ser outros tantos

Irmãos, ser preto, marrom, retinto, ser branco,

Ser índio, amarelo de tão vermelho, vermelho

De tantas cores

Por que penso na liberdade, na condição de livre

Por estar liberto dos medos de tantos “eus”

No passado, por enfrentar os grilhões de “meus”

Por despojar de tanta e toda herança, vindas

Nos porões frios, escuros como a cor da própria

Pele, acorrentado, de alma acorrentada.

"A Adolescência"



por Nathaly Guatura

 
 A adolescência é a fase mais crítica, e, no entanto, a mais saborosa pela qual passamos. Já há a malícia de algumas escolhas e o terror causado por certas delas, onde acontecem as primeiras sensações que um dia farão parte do seu caráter e personalidade.
Algumas coisas nessa parte da vida podem ser decisivas e cruciais. Nela, você pode adquirir coisas que levará até o dia de sua morte, ou até mesmo, coisas que te levem mais rapidamente a ela.
E, é realmente muito difícil tomar partido e ciência de coisas tão fatais enquanto se está em meio a uma verdadeira explosão de tudo e nada. E, acredite, esse é o extremo dos extremos. É agora que somos capazes do que não fomos antes e do que também não seremos mais.
Por isso é importante que saibamos usufruir desse “auge” com muita intensidade e discernimento.
Que sejamos fortes o bastante para fazer as escolhas certas. E insanos o suficiente para sentir o que jamais sentimos outrora.
Parabéns a você que é, foi ou será adolescente. Que desfrute, relembre ou anseie disso e por isso com todo o rubor que a vida oferece!

"Legião Urbana “V”: um disco medieval"




por Luciano Melo

Such psychic weaklings has Western civilization made of so many of us.
(Assim o fraco intelecto da civilização ocidental tem feito cada um de nós).
Brian Jones, 1967.



Bem vindos aos anos setenta.


Talvez o primeiro contato com o universo que circunda o mais belo disco pop brasileiro dos anos 90 não deva ser propriamente no cd player, mas na última página do encarte. Embaixo de um mesmo amuleto que ilustra a capa do álbum está grafado o mesmo par de frases acima, apontando a tudo que se possa encontrar ao longo de pouco menos de 80 minutos de muita pancadaria, distorções e arranjos de cordas. Metal e nuvens. Neste sentido, a obra torna-se uma leitura pouco entusiasmada do Ocidente numa linha quase cronológica entre o medievalismo do século XIII ao rock progressivo dos anos 70.

Neste caleidoscópio de imagens e referências que o próprio conceito do álbum sugere, a fecundação do disco foi realizada praticamente a partir dos próprios ensaios de estúdio, o que resultou no trabalho mais bem acabado e meticuloso da Legião Urbana. Quase que diariamente, durante oito meses de 1991, enfurnados num estúdio da Barra da Tijuca, o grupo praticamente se exilou do contato com os fãs e compromissos com shows e mídia. Quiçá pela debilidade física já flagrante de Renato Russo, era comum o compositor varar noites em claro entre violões e microfones para não precisar se deslocar tanto e, durante a madrugada, elaborava uma espécie de ópera-rock que caracterizaria a elaboração do álbum. Em relação à concepção das canções, o disco não fugiu à regra de trabalho da banda. Quase sempre Marcelo Bonfá trazia um embrião de melodia que aos poucos ia tomando forma a partir do recheio das letras de Renato Russo. Não era nada muito dispendioso de tempo quando partiam para as primeiras gravações demo e mixagens. No entanto, após a exaustão que consumiu a banda pós-Quatro Estações, era o momento de baixar um pouco a poeira. Renato Russo sabia que uma nova empreitada dificilmente renderia tão bons frutos financeiros e midiáticos como o disco anterior, embora os olhos mercadológicos da Emi-Odeon exigissem o contrário. Mas o grupo (entenda-se Renato Russo) não resistiria a mais uma maratona como havia acabado de passar. Muito menos agora que seu líder padecia com o soropositivo.

Horas e horas de estúdio foram necessárias para a gravação do novo trabalho. As melodias de Bonfá iam tomando forma a partir das intenções que Renato Russo pretendia para uma espécie de linha temporal do álbum. O cristal estava sendo lapidado.

“V” surge como um disco-conceito. A tentativa é promover um álbum que seja ouvido numa única e ininterrupta seqüência, ou seja, uma leitura. Para tanto, a construção de cada faixa requer uma perfeita intimidade entre a palavra e o instrumento. Em todas as onze composições do álbum, o início de cada faixa é absorvido por uma sonoridade que procura ofertar ao ouvinte um ambiente mais próximo possível do universo da letra que virá a seguir. A idéia é que a primeira parte do álbum (Love Song, Metal contra as nuvens, A Ordem dos Templários e Montanha Mágica) seja executada de maneira uníssona num único compasso de bateria e com o mínimo intervalo entre as faixas. Isso fica bem claro no lado A da edição do long play. A segunda parte ( O teatro dos vampiros, Sereníssima, Vento no litoral, O mundo anda tão complicado, L’ Âge D’or e Come share my life) compreende os “anos setenta” da epígrafe acima, entre o progressivo inglês e a acidez punk. Mesmo assim, nesta ponte entre a Idade Média e a contemporaneidade, a canção abre-alas do lado B (O teatro dos vampiros) é introduzida por rifles de guitarra que remetem ao tema barroco do Canon de Johann Pachelbel.

Love Song é a faixa que abre o disco. Alguns ruídos são logo tomados por um órgão crescente que aos poucos assume uma melodia morna e renascentista. Também lentamente vai perdendo espaço até as estocadas do violão elétrico que se manterá por toda a canção. Um conjunto de cordas integra o ambiente medieval da faixa para a letra que virá a seguir:



Pois naci nunca vi Amor



e ouço d’el sempre falar



Pero sei que me quer matar



mais rogarei a mia senhor



que me mostr’ aquel matador



ou que m’ ampare d’el melhor.



O texto é uma cantiga de amor portuguesa de Nuno Fernandes Torneol, trovador da primeira metade do século XIII. Os versos são entoados de maneira imperativa e acompanhados por um coro gregoriano ao fundo. Ao final do recital, surge em seguida um baixo que inaugura uma nova faixa, um segundo andamento. Então uma melodia folk muito simples e bem marcada pela bateria de Marcelo Bonfá parece suscitar o universo melodioso da Legião Urbana na suíte de onze minutos Metal contra as nuvens.

A peça está divido em quatro momentos ou episódios. Quatro universos temáticos amarrados por uma única condição: o transeunte solitário que vê a máquina do mundo passar perante os olhos. Repleto de referências da crise econômica brasileira de meados dos anos 90 ou ponteado de elementos autobiográficos de Renato Russo, os versos ecoam o ambiente medievalista da canção anterior por uma série de vocábulos que remetem ao campo da cavalaria provençal. Na primeira parte, encontramos um viajante desgarrado de qualquer filiação a não ser de certa idealidade que o anima:



Não sou escravo de ninguém



Ninguém é senhor do meu caminho



Se o que devo defender



E por valor eu tenho



E temo o que agora se desfaz



Mas este orgulho de exílio existencial fica apenas no campo da ideologia. No terceto derradeiro desta estância, o cavaleiro retoma o gáudio da terra natal como o mote de bravura e honraria. A alusão à lua e às estrelas pode ser vista reproduzida no interior do amuleto da capa do álbum. Esta ilustração pode ser compreendida como uma espécie de brasão medieval que integra elementos mítico-religiosos e naturais:



Mas minha terra é a terra que é minha



E sempre será minha terra



Tem a lua, tem estrelas e sempre terá.



A sensação de acolhimento à terra natal mesmo sem obedecer a um senhor pelo caminho é transposta de modo virulento para a segunda parte do texto. Em meio a um metal que se contrapõe ao folk cadenciado anterior (as nuvens), Renato Russo incorpora o próprio cavaleiro em solo tupiniquim sob a recessão do governo Fernando Collor de Mello:





Quase acreditei na sua promessa



E o que vejo é fogo e destruição



Perdi a minha sela e a minha espada



Perdi o meu castelo e minha princesa







Quase acreditei, quase acreditei.







E, por honra, se existir verdade



Existem os tolos e existe o ladrão



E há quem se alimente do que é roubo







Vou guardar o meu tesouro



Caso você esteja mentindo.







Olha o sopro do dragão.



A cadência melódica é retomada no fundamental e inédito terceiro bloco, o mais autobiográfico de todos. É a primeira vez que o compositor menciona o flagelo físico pelo qual passava à base que coquetéis para remediar o avanço da Aids no sistema imunológico e as conseqüências traumáticas após um ano ter se declarado homossexual. O fantasma da morte de Cazuza e as semelhanças biográficas com o próprio Renato Russo consumiam o olhar poético do compositor, que nunca fôra tão cético como antes:



É a verdade que assombra.



O descaso que condena,



A estupidez o que destrói.







Eu vejo tudo o que se foi



E o que não existe mais.



Tenho os sentidos já dormentes,



O corpo quer, a alma entende.



(...)



Não me entrego sem lutar –



Tenho ainda coração.



Não aprendi a me render:



Que caia o inimigo então.



A derradeira (e quarta) estância parece aproximar o cavaleiro do sublime desfecho da travessia. As cordas que haviam desaparecido após a primeira parte reaparecem em meio à melodia. É uma espécie de redenção do lírico após ver passar, perante os olhos, a condição de sua terra natal ou de sua própria condição. A retomada da vida ou do caminho é sugerida ao final do texto sem nunca olhar para trás – numa reminiscência ao episódio bíblico de Sodoma e Gomorra. Também a melodia parece acompanhar o andamento do enredo. No final, novamente o violão está solitário como quando se iniciaram os primeiros versos. Apenas voz e instrumento executados pelo compositor prontos a recomeçar o caminho.

O recomeço reinveste na temática da cavalaria. A Ordem dos Templários é uma faixa instrumental que relê outra canção medieval, Douce Dame Jolie, de Guillaume de Machaut (século XIV). O disco adquire um clima non sense pós-travessia no inferno da música anterior. A melodia revisita a Idade Média sem maiores preocupações estéticas, deixando apenas a cadência do compasso da bateria domar os lampejos de um órgão sem maiores desenhos. Talvez a intenção seja amolecer as sensações auditivas do ouvinte para o que viria, como uma preparação aos paraísos artificiais da faixa a seguir.

A Montanha Mágica é uma canção sobre as drogas. O texto parece um apanhado sem sentido de versos que vão se sobrepondo uns aos outros sem muita objetividade, numa clarividência de um suposto efeito entorpecido na estética de construção do poema:



Sou meu próprio líder: ando em círculos



Me equilibro entre dias e noites



Minha vida toda espera algo de mim



Meio-sorriso, meia-lua, toda tarde.



(...)



Ficou o que tinha ido embora



(...)



O que temos é o que nos resta



E estamos querendo demais.



(...)



O mecanismo da amizade,



A matemática dos amantes –



Agora só artesanato:



O resto são escombros.



(...)



Cada criança com seu próprio canivete



Cada líder com seu próprio 38



(...)



Deixa o copo encher até a borda



Que eu quero um dia de sol n’um copo d’água.



O texto é em si plástico. As imagens coladas umas às outras sem muito critério aproximam-se de colagens cubistas ou pelas absurdas associações podem ser lidas pela ótica surrealista. A melodia modorrenta parece se arrastar ao longo dos versos provoca sensação de sonolência ou anestesia durante toda a canção. O refrão, por sua vez, deixa de lado as ilusões ou sugestões das outras estrofes:



Minha papoula da Índia



Minha flor da Tailândia



És o que tenho de suave



E me fazes tão mal



A partir da segunda repetição do refrão, em alguns momentos os versos são declamados sobrepostos por si próprios em mínimo intervalo de tempo, o que provoca quase um eco do que está sendo dito. Este recurso acentua ainda mais a embriaguez que domina toda a faixa. Ao final do texto, uma guitarra sem muito sentido desponta em meio à melodia até restar somente o marulho das ondas. É o fim da primeira parte da peça.

Com o lado B do disco cruzamos a ponte entre a Idade Média e a contemporaneidade através de Teatro dos Vampiros, mas ainda com um pé do outro lado pela introdução do Canon de Pachelbel. Mas pop é pop. O título da música é uma direta referência à novela global exibida na época, Vamp. A canção é o retrato da juventude nos anos 90, pós-ditadura e com uma tremenda crise econômica inflacionando os preços, os juros e as dívidas de toda a população pelo país afora. A falta de perspectiva do futuro e a desilusão brasileira por uma tão sonhada democracia que naufragava num colapso financeiro caracterizam esta faixa como a mais engajada do disco:



Vamos sair – mas não temos mais dinheiro



Os meus amigos todos estão procurando emprego



Voltamos a viver como há dez anos atrás



E a cada hora que passa



Envelhecemos dez semanas.



A faixa seguinte é iniciada por gritos na platéia característicos de um registro ao vivo. É a porta de entrada para a seqüência de hits que a Legião Urbana pretendia emplacar: Sereníssima, Vento no litoral e O mundo anda tão complicado. É a razão de estarem dispostas uma após a outra. O que assombrou o grupo foi o inesperado gosto popular de Teatro dos Vampiros, por achar política demais. Também esta trinca – que se tornou um quarteto – não poderia participar do lado A do disco, por todo o conceito já citado anteriormente. Na verdade, a intenção do grupo era lançar um álbum duplo com jeitão de ópera-rock, apenas com músicas inéditas executadas em estúdio e ao vivo.

Como não foi possível, a sexta canção tem todo o ambiente de show. Gritos, assobios, a banda animadíssima e entrando num compasso muito rápido fez com que Sereníssima, também assim conhecida a cidade de Veneza na época do Renascimento, numa felicíssima coincidência com o conceito de “V”, segundo Renato Russo confessara no Acústico MTV, se tornasse a faixa mais alto astral do disco.

O paradisíaco Vento no litoral e o metropolitano O mundo anda tão complicado tratam do relacionamento amoroso como poucos compositores pop conseguiram fazer, além de Renato Russo: a sensação de vazio e o desapego à materialidade do cotidiano. O disco estava nas graças do público.

L’ Âge D’or, ou a Idade do Ouro, é o posfácio do álbum. É como o comentário final de toda a jornada percorrida. Como era de intenção de Renato Russo de “V” ser executado ininterruptamente por todas as faixas, este último capítulo é a retomada de todos os temas apresentados, desde a Idade Média até os dias contemporâneos.

Ah, ainda tem Come share my life, canção folclórica americana. Bem, é a ilustração da última capa.



* * *



(Um post scriptum dispensável)



Levei algumas horas de duas madrugadas para concluir este texto. São apenas comentários que não devem ser levados a sério. Mas não deixa de ser curioso o fato de sentir vagamente o cheiro embolorado de uma fita cassete Basf (com um V rabiscado de caneta azul sobre a etiqueta branca) girando no par de engrenagens de um Gradiente antigo e eu rachando a ponta dos dedos nas cordas de nylon no violão de meu pai, tentando “malemá” acompanhar os acordes de cada música do disco.



Eh, vida. Deixa prá lá.